terça-feira, 8 de novembro de 2016

Cartão Postal

Eu sempre colecionei desde que me conheço por gente cartões postais. Em parte porque eu fazia algumas viagens com meus pais quando era mais nova e os cartões me davam uma lembrança diferente das fotos, e em parte porque desde que conheci o projeto postcrossing me apaixonei por receber postais.
Por isso, a partir de agora pretendo, como uma nova fase da minha vida, postar sobre essas lembranças maravilhosas que eu tenho e também, as maravilhas que recebo de outros países!  

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Dúvidas velhas

Faz tempo que não converso comigo mesma. Não me conecto mais ao meu espírito/alma que eu tanto gostava. Acho que me enganei em alguma curva da vida de que ser livre era seguir em frente contando com a certeza do amanhã.
Mas o amanhã nem sempre virá.
Talvez o amanhã não seja nada além de uma ilusão que nos move a caminhar esperando que mais cedo ou mais tarde nossas pacatas vidas se tornem algo incrível. Algo fruto de uma história  bem vendida nas livrarias.
Alguns  anos atrás meu pai disse que a vitória não vem sem sacrifícios, e hoje eu tenho me perguntado se por acaso os meus sacrifícios não tem valido a pena, porque por mais que eu me esforce estou caindo sempre no mesmo buraco escuro e frio.
Não vejo mais aquilo que chamamos de luz no fim do túnel.  Não espero mais que haja dias melhores. Não tomo mais café com a frequência que tomava.  Hoje eu só me sento e penso por que ainda tenho resultados iguais. Por que ainda não vejo luz? Por que ainda não consegui ancorar meu navio em um porto seguro?



quarta-feira, 20 de julho de 2016

O Gênio Akinator

Você conhece ou se lembra do gênio Akinator?
Ele é um jogo online (que hoje até possui aplicativo para celulares) onde o Gênio Akinator descobre em quem você está pensando! Isso mesmo! 
Tudo o que você precisa fazer é pensar em alguém famoso ou anônimo e responder com "sim" ou "não"  e com sinceridade, que ele advinha. É um passatempo maravilhoso e você pode se divertir aos montes com a família e os amigos.

Pode-se dizer que ele acerta cerca de 98% das vezes, e acredite, ele acerta qualquer, eu disse QUALQUER pessoa em quem você pensar. Pode tentar pensar em sua mãe, sua irmã, seu marido, seu cachorro, qualquer um, ele sempre (ou quase) acerta.
Caso você meu amigo, queira tentar os conhecimentos do querido Gênio Akinator, deixo aqui o link para que você possa brincar horrores com ele.
É divertido, saudável, e caso você ainda não o conheça, acredite, essa é uma boa hora!
Clique AQUI para jogar.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Crônicas do Décimo Quinto

O Princípio

Quando eu era mais nova ficava idealizando um apartamento para a minha vida. Consequentemente, talvez não da forma como pensei, mas apenas como fruto de uma energia positiva jogada ao universo, cá estou.
No começo a gente estranha (isso a depender de onde vem as suas raízes). Às vezes ele realmente é um APertamento, em outras, ele parece gigantesco, isso, claro, vai da situação.
Demora um pouco, eu confesso, até a gente pegar o jeito. Falar mais baixo, tentar acostumar com um cutucão ou outro que vem de vassoura do vizinho de baixo, com as coisas que caem do vizinho de cima, acostumar com odores...diferentes, se é que posso dizer assim, que vem de outros apartamentos.

A convivência de elevador é sem dúvida algo fantástico. A gente se aperta no cubículo e fica tentando respirar menos, embora a gente seja sempre educado e comprimente uns aos outros com pelo menos um “bom...” qualquer coisa. É nessas horas que a gente conhece pessoas simpáticas também. Conhecemos cachorros de nomes peculiares, descobrimos quem são os fofoqueiros, os amáveis e claro, gravamos os rostinhos das crianças!

Mas a gente acostuma com esse negócio de ter sempre um monte de gente indo para o mesmo lugar. Dias atrás estava subindo para o lar, e quando eu menos esperava, o elevador ficou pequeno. A gente foi se espremendo nos cantinhos enquanto um outro morador tentava colocar o carrinho de compras lá dentro.  A parte legal disso é que sempre há carrinhos de compras pra gente conseguir subir com todas as nossas coisas, caso contrário, acho que levaríamos um tempão fazendo a baldeação.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Somos O Que Somos, E Não Há Nada Que Negue A Nossa Essência.

Me peguei nestes dias pálidos de outono procurando uma explicação qualquer para acalmar meus ânimos. Sempre quando deixamos de fazer algo que amamos, sentimos essa necessidade de procurar eventos que possam explicar o por quê de termos nos afastado das coisas que amamos fazer.
Eu, na minha inútil tentativa, repito várias e várias vezes para me convencer de que parei de escrever por causa dos estudos. Depois inventei que parei de ler porque precisava de mais tempo para me concentrar nos afazeres de casa. E o pior, ainda emendo que parei de fotografar porque todo mundo fotografa.
No fundo, bem lá no fundo, eu sei que fico procurando explicações para saciar a angustia que me toma quando penso que deixei de ser eu. Quando penso que reneguei a minha essência por preguiça, por falta de motivação, por falsas esperanças de que o amanhã seria melhor para recomeçar.
A gente faz isso o tempo todo, eu, você, nós.
Não dá para negar que quando deixamos nossa verdadeira essência de lado nos desequilibramos, tanto emocionalmente quanto fisicamente.
Caímos na falsa sensação de estarmos atarefados demais para sermos quem somos.
Nos esquecemos que não há dia perfeito para retomar nossos caminhos.
Precisamos parar de olhar para trás e ficar lamentando pelas tantas vezes em que negamos os nossos profundos desejos de voltarmos a ser quem um dia fomos.
Pare tudo o que está fazendo, procure uma caneta e um pedaço de papel. Enumere as coisas que realmente fazem sentido para você.
Organize-se.
Encontre horários que sejam só seus.
Esqueça essas suas falsas desculpas que você arranja para você mesmo, com a ilusão de estar se justificando para o mundo.
Entenda que há prioridades, mas não deixar que isso ofusque os seus prazeres.


Ilustração por Morgan DavidsonZupi

sexta-feira, 11 de março de 2016

Uma canção

Minhas mãos apertavam o volante enquanto algumas lágrimas rolavam pelo meu rosto.
Minha mente rodava estranhamente e tudo parecia perdido. Era dolorido sentir a frustração de não ter alcançado meu objetivo. Cogitei a desistência, me mudar para outro país e mendigar esmolas no metro, mas nada disso aconteceu, porque enquanto o velocímetro disparava e meu coração explodia no peito, no rádio o Raul cantava.
Raul cantou lindamente e seu refrão ficou no ar.
Um suspiro derreteu o ódio que eu deferia contra minha a minha incompetência, então eu cantei. Cantei e cantei e cantei.

"Tente
E não diga que a vitória está perdida
Se é de batalhas que se vive a vida
Tente outra vez"

E as lágrimas, o ódio e a tristeza cessaram. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O último Beijo - Capítulo 1




— Mãe! — Sophia gritou — Manhê!
Ela vinha correndo pelas escadas. Os cachinhos loiros voavam para trás na sua pequena pressa.
Atravessou a sala, passou correndo pelas portas de vidro e saiu pelo jardim. Os pezinhos pequenos, descalços e sujos.
— O que aconteceu, minha filha? — Clara, assustada quase pulou da cadeira em que repousava para ler um livro.
Inspecionou com os olhos a pequena menina, segurou-a nos braços e a virou.
Sophia estava imunda. Com camadas grossas de pó por todo o cabelo e roupas, havia até umas manchas marrons pelo rosto da pequena.
— Lê pra mim? — Sophia pediu esticando uma pequena pilha de envelopes amarrados por um barbante fino.
— O que é isso?  — Clara perguntou curiosa mais para si mesma, do que para Sophia.
Os envelopes estavam amarelados pelo passar de tantos anos. Rasgados cuidadosamente nas laterais. Alguns papeis saiam de dentro dos envelopes. Por cima, eles estavam remetidos a "Bernardo".
— Onde encontrou isso? — Clara perguntou.
— No quarto escuro! — Sophia estava tão ansiosa para saber o que havia escrito naqueles papeis que não esperou a mãe falar e já lhe foi tomando os envelopes de volta para si.
— Por que você estava no porão? — Um pequeno olhar de repreensão saltou de Clara.
— Eu estava explorando mãe!  Tinha um monte de caixas de papelão cheias de coisas. Tinha um monte de livros, um monte de bichinhos mortos, muito pó. Olha só meus dedos mãe! — Sophia ergueu a mão com os dedos totalmente sujos.
— Hum... — Foi só o que saiu de Clara.
— Mãe, por que tem tantas coisas lá em cima? Você e o pai esqueceram as coisas lá?
Clara sorriu. Não podia se conter em achar graça na curiosidade da filha.
— Não, Sophia. Aquelas coisas perderam sua utilidade, então nós os guardamos lá.
— Pra quê mãe? Não era melhor jogar tudo fora ou dar para alguém?
— Talvez. Eu ainda acredito que deve haver alguma coisa lá que sirva para algo.
— Mãe! As coisas estão esquecidas lá! Como você vai saber que precisa de uma coisa se você esqueceu lá? — Sophia deu um tapinha na testa para afirmar a tolice da mãe, o que ocasionou em mais uma machinha para o rosto sujo.
— Que tal você tomar um banho, querida? Você está coberta de pó! — Clara salivou o polegar e esfregou na testa da menina.
— Você não vai ler pra mim? — Ela baixou o olhar para os envelopes em suas mãos, depois ergueu o olhar novamente transformando-o suplicante.
Mães nunca resistem a esse olhar.
— Certo! - Clara revirou os olhos.
Pegou os envelopes das mãos de Sophia, sentou-se na cadeira de repouso e abriu o primeiro envelope. Com um sopro forte Clara conseguiu fazer voar algumas centelhas do pó, mas não foi o suficiente. Seus dedos ficaram grossos pela poeira. Sem resistência, ela buscou uma flanela para passar por entre os envelopes e tentar tirar um pouco de toda aquela sujeira.
Antes de iniciar a leitura anunciou alto — É uma carta!
Sophia enlargueceu o sorriso. Então sentou-se em frente a mãe.
— "Bernardo". - Clara leu em voz alta.
— Bernardo... — Sophia repetiu, saboreando o nome na boca. — Bernardo é o vovô, não é mãe?
— Me parece que sim, querida. — Clara sorriu.
Clara o desdobrou e passou os olhos rápidos pela carta endereçada a seu pai. Caligrafia caprichada.
Coisa de mulher. Pensou.
— Mãe! — Sophia chamou.
— Sim? — Clara desviou os olhos da carta para a filha.
— Estou esperando. — Sophia apontou para a carta, impaciente.
— Ah sim! Desculpe querida... — Limpou a garganta e deu início a leitura.

“Bê,
Fiz a mala hoje, e foi com pesar que me lembrei em cada muda de roupa que coloquei na bagagem que você não poderia estar comigo.
Tudo bem, eu entendo.
Estou com certa expectativa. Nosso grupo de viajantes está se comunicando faz algum tempo. Sabemos que será razoavelmente difícil fazer o percurso todo em 60 dias, mas queremos aproveitar cada segundo que tivermos e alcançar o máximo que pudermos todos os dias.
Daremos partida na Av. Paulista - SP como eu te disse, iremos pelo litoral até a Bahia, depois voltaremos pelo centro do país passando por Minas Gerais e desceremos até o Sul. Nossa última parada será em Gramado.
Vai ser incrivelmente cansativo, mas você sabe, não é? Sempre amei esse tipo de aventura. As bicicletas estão preparadas e teremos alguns acompanhantes que irão de carro para eventuais problemas.
Nossa primeira parada será no Rio de Janeiro, para um descanso de um dia. Sei que haverá pessoas que vão desistir na pausa, aliás, sei que haverá pessoas que irão desistir ainda hoje, mas isso não me abala, ainda temos um grupo forte que vai dar o sangue para terminar essa viagem, e eu estarei entre eles! (Eu ouvi um amém?)
Te escreverei em cada parada detalhando tudo!
Com amor, carinho e saudade (muita saudade!),
Sara”


— Mãe, quem é Sara? — Sophia perguntou com os olhos espremidos.
Clara olhou mais uma vez para a carta, depois para os envelopes unidos notando a mesma caligrafia.
— Ótima pergunta. — Clara disse.
— A vovó tem outro nome, mãe?
Clara não respondeu, ao invés disso, tirou outro envelope da pilha. Preparou-se para abrir, então Sophia com suas pequenas mãos a impediu. Clara a encarou sem saber exatamente o porquê.
— O que houve? — Clara perguntou. — Não quer saber o que mais temos aqui?
— Quero... mãe, podemos ir à casa do vovô antes de ler a próxima carta?
— Acho que sim. Posso dar uma espiadinha antes de irmos?
— Não, né mãe?!
— O que quer fazer na casa do vovô?
— Mãe! Para de fingir que é boba! Quero saber quem é a Sara!
Clara a olhou e sentiu orgulho daquilo. Sorriu. Depois pegou a pilha de envelopes unidos, colocou a que leram por cima, e levou as cartas para a sala.
— Você precisa de um banho! Vou ligar para o seu avô e avisar que estamos indo, está bem?
— Sim! - Exclamou Sophia. Tinha em si uma mistura de felicidade e curiosidade.
— Tente não emporcalhar o resto da casa! - Clara gritou assim que se lembrou de como a filha estava suja.


***
— Pai?
— Diga "Alô?"  — Soou uma rouquidão na linha.
— Alô! — Clara disse.
— Quem fala? — Bernardo perguntou segurando um risinho.
— Pai! — Clara revirou os olhos.
— Que pai? — Ele perguntou.
— Deus do céu! Pai, pare!
— Não posso nem me divertir mais na linha telefônica. — Ele resmungou baixinho. Depois limpou a garganta e sua voz soou muito mais forte. — Como vão as coisas por aí?
— Bem. Estou avisando que estamos indo para sua casa agora.
— Não estou em casa.
— Pai, eu liguei no seu telefone fixo. É óbvio que você está em casa.
— Droga! Não consigo nem mentir mais! — Ele riu gostosamente, e Clara o acompanhou na gargalhada.
— Podemos ir? — Ela perguntou fingindo ter se ofendido.
— Claro, mas traga mel para garantir sua entrada!
— Eu te amo, pai.


                                                 ***     
Clara dirigiu até o outro lado da cidade. O pai sempre deu preferência por morar em apartamentos. Segundo Bernardo, eles eram compactos, cheios de vizinhos desnecessários, mas que sempre ficam felizes de serem chamados para assistir o último capítulo da novela e tomar um chá.
Bernardo é um desses velhinhos corpulento, meio corcunda, quase careca. Segundo ele, seus últimos fios de cabelo são a lá moda "Cebolinha" *
Tem um sorriso inteiro, diria que é quase bonito, se não fosse óbvio que naquela altura usava dentadura.
Em dias de frio ele convoca as vizinhas mais assanhadas do prédio para assistir novela e se delicia com os gracejos femininos.
O apartamento é pequeno, só com o necessário para um solitário. Bernardo tem um peixe dourado.
— Prefiro um cachorro. — Ele dizia, então Clara explicou que um peixe era um animal de estimação mais adequado para quem mora no apartamento. Reclamando ele disse em resposta. — Veja filha, se eu tivesse um cachorro, mais moças passariam por aqui e fariam gracinhas a ele, então nós conversaríamos e talvez eu tivesse um pouco mais de convívio social. Mas você me deu um peixe. Como vou passear com um diabo desses?
A conversa foi encerrada ali mesmo. Clara colou um adesivo de cachorro no aquário em provocação, e o velho fingiu não ter notado, até que finalmente ela foi embora e ele pode amassar o adesivo sem constrangimento.
Dias depois desse episódio Bernardo comprou um cachorro. Trouxe para casa um desses cachorros pequenininhos, de focinho empinado e mirradinho.  Um pinscher. Caberia numa bolsa se quisesse. Em uma bolsa de moedas para ser mais exato. No dia seguinte da compra Bernardo recebeu uma multa do condomínio por excesso de barulho.
O diabo do cão latia desde o momento que chegou, até o momento em que foi embora. No único segundo em que ele havia se silenciado ele estava urinando no travesseiro de Bernardo.
Ele nunca contou a Clara sobre o cachorro e se sentiu muito feliz por ter um peixe que não lhe acarretava em nenhuma multa.


Quando Clara chegou o porteiro a reconheceu.
— Boa tarde, Dona Clara!
— Boa tarde, Maurício! — Ela devolveu.
Sophia apenas deu um aceno de mão entusiasmado.
Elas andaram rápido pelo saguão até o elevador.
Sophia batia o pequeno pezinho impaciente.
 Levou menos de 1 minutos para chegarem ao apartamento 28.
Antes de baterem na porta, o avô Bernardo abrira recebendo-as com um enorme sorriso. Suas sobrancelhas brancas faziam Sophia se lembrar do Papai Noel.
— Minha filha e neta preferidas! — Ele disse abraçando-as.
— Pai, eu sou sua única filha, e Sophia sua única neta. — Clara disse enquanto entrava. Colocou a bolsa no sofá e esperou que ele se sentasse também, mas ele não o fez.
— Veja bem, — Ele disse com o indicador levantado — se houvesse outra filha, você ainda assim seria minha preferida! — Então ele fez uma pausa, levou o dedo aos lábios. — Pensando bem, acho que sua irmã seria mais legal do que você, então... ah, vamos deixar isso pra lá. Não quero ficar me frustrando, pensando na oportunidade que perdi de ter uma filha legal.
Eles riram.
Bernardo estava entre as pessoas que estão sempre caçoando de você, e quando digo sempre, é sempre mesmo.  Mas não é algo que ele faça por maldade, é só porque é o jeito que ele resolveu levar a vida. Sua relação é bem aberta com qualquer pessoa e seu taradismo chega a ser engraçado.
— Trouxe mel? — Um brilho atravessou os olhos de Bernardo.
— Sinto muito — Clara disse. Então revirou a bolsa. — Serve o puro?
Bernardo sorriu. Pegou o pote de mel e levou para a cozinha. Depois voltou e fez sinal para que elas o acompanhasse.
Pegou torradas e passou mel nelas, exatamente do jeito que ele gosta. Ofereceu a Sophia, mas ela recusou como sempre fazia. Mel deixava os dedos pegajosos. Ainda era uma criança que se sujava ao comer.
— Pai, encontrei algumas cartas no porão hoje. — Clara disse.
Sophia ao ouvir deu um cutucão em sua mãe.
— Encontramos. — Clara corrigiu.
Outro cutucão.
— Certo! Sophia encontrou! — Ela disse. — Nós lemos uma dessas cartas.
Outro cutucão.
— Deus do céu! — Clara exclamou. — Quer parar com isso?
— Vô, foi ela quem leu, tá?!
Ele fez que sim com a cabeça e sorriu. Passou mel em outra torrada e mordeu devagar. Depois meneou a cabeça.
— Prossiga.
— Quem é Sara, pai?
Bernardo parou de se mover por alguns segundos. Os olhos se perderam num abismo. A feição mudou. Parecia ter se lembrado de algo que aconteceu há muito, muito tempo atrás.
Voltou a morder a torrada.
O silêncio tomava a cozinha por completo, exceto pelo mastigar de Bernardo.
— Longa história. — Ele respondeu depois de algum tempo.
— Quer as cartas de volta? - Clara perguntou. Depois se arrependeu de perguntar. Ainda estava curiosa para saber o que havia nas outras cartas. Talvez as ler a faria descobrir quem era Sara. Se ela veio antes ou depois de sua mãe. Se era alguma amante. Qualquer pista.
Bernardo sorriu, mas não disse nada.
Clara baixou os olhos para a toalha de mesa. Havia desenhos de frutas.
Sempre achei engraçado que na medida em que as pessoas envelhecem e tomam o caminho de suas vidas, elas trocam a toalha de mesa branca pelas estampadas. Não que isso seja unanime.
Sophia saiu correndo da cozinha e foi para a sala. Apesar de ser pequena, ela sabe muito bem quando o clima está “pesado” . Ligou a TV e ficou assistindo um desenho. Qualquer coisa era melhor do que o silêncio que havia ficado naquela cozinha.
Quando Bernardo terminou de comer suas torradas com mel, ele tocou a mão de Clara e como se respondesse a dúvida que a atormentava, ele disse:
— Eu ainda não conhecia sua mãe.
Clara suspirou aliviada.
Ele reclinou-se na cadeira e deu um suspiro. Os olhos estavam marejados. A emoção o tomou como uma onda. Era notável que ele havia retornado em sua memória e capturado todas as lembranças as quais esse nome se sustentava.



— Depois de 67 anos eu ainda me lembro de como me senti quando a vi pela primeira vez...


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Gente, comecei a usar o Wattpad recentemente para postar capítulos do livro que estou escrevendo, entretanto, verifiquei que o link para acesso ao capítulo disponibiliza apenas metade do texto, o que significa que o leitor precisaria fazer sua inscrição no site. Acho isso muito chato, por isso resolvi postar aqui também.
No caso de alguém ter Wattpad e quiser ver por lá ( que é onde o capítulo sai primeiro),  o meu perfil está aqui